1984 e a (falsa) comunicação

Em 1984, romance definitivo sobre o totalitarismo, George Orwell descreve uma sociedade sufocada pelo poder absoluto do Estado da Oceania, um dos três continentes formados após a divisão global resultante de uma guerra nuclear. Neste painel de permanente contenda contra os demais continentes, Eurásia e Lestásia, a sociedade da Oceania é controlada pela inescapável vigilância do Grande Irmão, líder e figura simbólica do partido no poder, que exerce sua autoridade através da constante exibição da imagem de seu rosto austero e inquisitivo em teletelas, dispositivos de monitoramento presentes nas residências dos cidadãos; a face do tirano é subscrita pela famigerada máxima “O Grande Irmão zela por ti”. É neste cenário que acompanhamos a vida de Winston Smith, um burocrata inquieto que trabalha para o Ministério da Verdade, órgão encarregado de reescrever a história ao gosto do partido.

 

A prosa objetiva de Orwell prima por um realismo que é suplementado pelos contextos sócio-políticos do mundo na época, criando um senso de desesperança que permeia o enredo e dita o tom árido da narrativa em um estilo que passou a ser a marca registrada das ficções distópicas. Os personagens movem-se como autômatos e são subjugados a uma rotina sem margens para o lazer: de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Em casa, vigiados; no trabalho, contribuindo para com o gradual e aparentemente irreversível enraizamento das doutrinas do partido na consciência (e inconsciente) coletiva, diariamente interrompidos por dois minutos, no entanto, para extravasar seu ódio por Emmanuel Goldstein, antigo alto funcionário do partido e agora um traidor do mesmo. Segue-se um histriônico culto à personalidade do Grande Irmão, que emerge messianicamente como um ídolo a ser adorado, em um processo que Elias Canetti certamente se deleitaria em examinar.

 

Como funcionário do Partido, Winston Smith tem por tarefa falsificar a história. Analisando os fatos retratados em jornais antigos, o editor-redator retalha e reescreve ao mesmo tempo em que sente curiosidade por saber o que verdadeiramente aconteceu. “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”: o slogan do Partido define a perversão da comunicação social realizada pelo partido em prol da construção de uma realidade que lhe seja conveniente. Mesmo as notícias diárias são potencialmente insidiosas: a origem dos bombardeios intermitentes a Londres, uma das capitais do Estado da Oceania, e os rumores acerca de uma insurgência iminente, tudo se afigura como um panorama de artifícios minuciosamente arquitetado para fins de controle social. Neste sentido, 1984 não se distancia tanto de nossa realidade, onde alguns jornais e demais veículos de comunicação elaboram narrativas ideologicamente tendenciosas para favorecer seus interesses. Alguns comunicadores inclusive se dedicam à empresa de escrever guias politicamente incorretos da história do Brasil e do mundo.

 

Para a composição deste mundo sombrio, Orwell também criou alguns neologismos conceituais que sintetizam um pouco daquela realidade: exemplos são os termos novilíngua, duplipensar e crimideia. A novilíngua é o idioma em processo de desenvolvimento no romance. Caracteriza-se pela remoção de palavras dos dicionários com o intuito de limitar o alcance do pensamento, em uma reforma linguística que tem por objetivo último evitar quaisquer ideias novas por parte da população. O segundo termo, por seu turno, já uma palavra oriunda do novo idioma, designa o ato de pensar contraditoriamente, isto é, aceitar ao mesmo tempo duas crenças diametralmente opostas; mentir e crer na mentira. Reescrever a história e acreditar na nova versão. Crimideia é outro exemplo de termo novilíngue, indicando ideias e pensamentos para além dos que são permitidos. Seus “perpetradores” são capturados pela Polícia do Pensamento, a entidade que monitora anomalias na uniformidade ideológica da população. A argúcia do escritor em lançar mão de tais termos evidencia-se pelo paralelo com alguns notáveis aspectos observados em regimes totalitários ao longo da história, com civis e até funcionários de partidos sendo exilados ou executados quando dissonavam das normas rigorosamente estabelecidas. Ideias tidas como ortodoxas eram asfixiadas na União Soviética, por exemplo; o Nazismo tinha sua polícia secreta, a SS, e nos dois contextos as populações eram persuadidas e/ou forçadas a adotar uma passividade análoga à castração do pensamento visada pela novilíngua. A comunicação, sumarizada ironicamente no livro pelo Ministério da Verdade, também é paralelizada com ênfase aos mecanismos de comunicação de massas a partir dos quais Stalin disseminava falsas informações e estatísticas sobre fome e desemprego, por exemplo, ou Hitler era, com o auxílio de Goebbels, propagandeado como o homem que restauraria a economia da Alemanha. A censura também era uma ferramenta importante na articulação das narrativas artificiais em torno das quais os ditadores formulavam suas realidades e no livro não é diferente. Aquiescer, cabisbaixo, sem ousar contestar foi e ainda é a realidade de muitos civis ao redor do mundo, e o autor captura toda essa aura opressiva com a habilidade de um artesão a um só tempo sutil e feroz e capaz de esfumaçar os limites entre realidade e ficção.

 

Escrito em 1948 e lançado em 1949, o livro é não só uma afronta ao Stalinismo como um alerta sobre o perigo dos regimes totalitários. Por ter sido um adepto do socialismo democrático (o autor chegou a batalhar brevemente na Guerra Civil Espanhola contra o regime de Francisco Franco), Orwell elaborou uma obra marcadamente política e de orientações libertárias – seu outro romance famoso é A Revolução dos Bichos, uma fábula satírica sobre os expurgos e demais eventos ocorridos na União Soviética. O escritor foi vitimado por uma tuberculose em 1950 e sua obra-prima deixou um legado estético e político à literatura e às artes em geral, sendo debatida até hoje por se assemelhar cada vez mais à realidade. O livro foi adaptado para o cinema em duas ocasiões: primeiramente em 1956, num filme que, exceto por sua conclusão, é fidedigno ao material de origem e traduz com precisão visual e narrativa as sensibilidades estéticas do livro; e convenientemente no ano 1984, num filme fraco e sem muita gravidade cujos acertos se resumem aos cenários estéreis e à escalação de John Hurt para o papel principal. Outros livros tematicamente similares a 1984 são Admirável Mundo Novo (este tão contundente e atual quanto), de Aldous Huxley, sobre um futuro de consumo, dispersão e excessos, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, sobre a obliteração da cultura (uma das características do fascismo) e O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, uma perspectiva reversa da história.

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