Verdade e perspectivas em Guerra sem Cortes

 

Um dos soldados em Guerra sem Cortes (Redacted, 2007) enuncia logo no início o que talvez seja a sentença mais contundente de todo o filme: que a primeira baixa nesta guerra – e, por extensão, em qualquer outra – será a verdade. A verdade que Brian de Palma tratará de perseguir nos noventa minutos subsequentes, uma verdade crua e violenta que a mídia americana não se dispõe a evidenciar e que o diretor traz à tona contrapondo as perspectivas oriundas de um diário em vídeo filmado por um dos soldados, um documentário realizado por uma equipe de jornalistas franceses, um blog dedicado às esposas dos combatentes, canais de opinião no YouTube, filmagens de câmeras de segurança etc. Trata-se de um falso documentário entretecido a partir de olhares diversos, às vezes contraditórios entre si, livremente baseado num caso real de estupro seguido de assassinato que ocorreu em 2006, na cidade de Al-Mahmudiyah, Iraque, quando um grupo de soldados americanos invadiu uma residência e violentou uma garota de catorze anos, em seguida executando-a com sua família.

 

Cineasta familiarizado com o farsesco e o ilusório, De Palma faz deste filme seu maior exercício de depuração, mas um exercício que se arquiteta em prol de seu tema: abre mão da elegância, do rigor, da mise-en-scène calculada, características de seu estilo recorrente, e, mirando a objetividade, se atém ao estrito registro das imagens em seu estado bruto, ainda que estas sejam a simulação de uma realidade – imagens que denunciam torpezas, mas imagens que também são suscetíveis à manipulação, à omissão. Neste sentido, Guerra sem Cortes é um filme de guerra no campo imagético onde a câmera é a arma mais poderosa e quem a detém possui o poder de apontar ou moldar a realidade: a câmera que expõe o cotidiano dos soldados através da perspectiva interna possibilitada pela lente de um deles, que, com seu projeto amador de documentário, ambiciona adentrar a faculdade de cinema; que, pelas lentes da equipe francesa, testemunha o trabalho cotidiano do pelotão americano em um ponto de inspeção que examina quem entra e sai da cidade, num registro pontuado por comentários que indicam inconsistências nos discursos dos soldados; e que oferece às pessoas, através da internet, a expressão de suas opiniões sobre a agressão em curso.

 

Os segmentos em vídeo ora expõem, ora ocultam uma nuance importante acerca da atuação americana em território iraquiano: em uma cena que sintetiza tanto as intenções do diretor com o filme quanto a importância da abordagem jornalística, a câmera dos documentaristas franceses registra uma fatalidade envolvendo a truculência dos soldados com uma mulher grávida. Em uma sutil transição de câmeras, uma repórter iraquiana faz a apuração do caso e descobre a realidade por trás da tragédia – a mídia americana, por sua vez, completamente ausente, não se pronuncia sobre a ocorrência. Um desentendimento fatal como este configura, afinal, mera estatística. E a mídia “oficial”, que atinge o grande público, elabora narrativas que passam a ser tidas como verdadeiras: o que é esquecido deixa de existir; a construção da realidade se fundamenta no que é divulgado. As câmeras de vigilância, mais intimistas, gravam as conversas inconfessáveis, as barbaridades planejadas ou já cometidas pelos soldados, como as discussões sobre a invasão à casa da família vitimada por estes assassinos – há inclusive uma denúncia aos abutres que buscam tirar proveito de situações extremas ao invés de impedir seu desenlace, como é o caso do documentarista que se propõe filmar a selvageria perpetrada pelos soldados sobre a família e desta forma reunir um conteúdo chocante que lhe garanta espaço na faculdade de cinema, ou o soldado que se imobiliza diante de tal situação e nada faz para evitar sua consumação, arrependendo-se amargamente após voltar para casa. Esta alternância entre dispositivos de registro permite que o diretor estimule o espectador a refletir sobre a natureza das imagens, entre exposições e ocultações, e seu papel na construção de discursos midiáticos, políticos etc. - políticos porque, afinal, o governo norte-americano é conhecido por censurar informações comprometedoras (daí o título original do filme) para preservar a imagem idônea que o país sempre visou compor para si.

 

Guerra sem Cortes é um filme forte e excruciante que, ironicamente ou não, foi muito mal recebido nos Estados Unidos, angariando comentários severos de jornalistas e críticos de cinema, além de ter sido um fracasso de público. É, afinal, uma obra intrépida e crítica das ações de seu país e do desserviço praticado pelos meios de comunicação de massa, que, ao invés de se denunciarem os horrores perpetrados pela invasão americana (tarefa relegada às mídias alternativas), contribuem, tendenciosos e/ou omissos, para com o seu alongamento. E o diretor, preocupado em apresentar os fatos, faz o contrário do governo e mídia que seu filme critica ao expor, nos minutos finais, fotos reais das consequências da ocupação americana, imagens extremamente impactantes que não circulam na mídia de massa e que encerram o filme com a verdade perseguida.

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