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Romantização de crimes na cultura pop: de quem é a culpa?

O ato de romantizar serial killers pode acarretar em uma apologia perigosa aos delitos


Por: Rafaela Silva Ferreira e Vitor Augusto - 22 de novembro de 2022 às 22h35



Os mais famosos serial killers da história (Imagem: Site de Curiosidade )


Filmes, livros ou séries que romantizam a vida de criminosos e músicas que pedem desculpas pelos crimes que serial killers cometeram, são comuns. Este é um estilo muito produzido, que vem se tornando um mercado muito grande para ser consumido. Isso acontece porque muitas pessoas são atraídas por esse tipo de persona e produto. Nesse contexto, pode-se observar que podem ocorrer consequências adversas para a sociedade, como o carisma dos criminosos, a redução da gravidade dos crimes e a motivação para cometê-los. Diante disso, fatores decorrem desse comportamento: o desejo de receber a mesma representação que os criminosos e a influência da mídia, que estimula as pessoas a se envolverem no crime.


Por exemplo, a cultura pop durante anos da indústria do cinema e da televisão ignorou a conversa sobre consentimento e reproduz uma cultura exploradora onde o sexo deve ser obtido a qualquer custo para satisfação pessoal ou aceitação social. Nos filmes e programas de TV, os meninos recebiam uma imagem estereotipada de vilões e os jovens infratores eram desculpados por serem “apenas” garotos. Além disso, o trauma foi usado para fortalecer as protagonistas e torná-las heroínas. Assim, como a exploração foi romantizada para criar heróis, foi usada para mostrar a força e a determinação de heroínas ou mulheres de sucesso.


Mas, quem é o culpado por essa bola de neve que vem se formando durante muito tempo? Pessoas com as mentes “quebradas”? Atores muito bonitos que interpretam monstros da vida real? Ou, quem sabe, produtores e diretores que sabem o tamanho da fama e influência que possuem?


Recentemente, o serviço de streaming Netflix foi acusado de apresentar “fantasia e romantização” por usuários da rede social Twitter, em sua última produção intitulada “Dahmer: Um Canibal Americano.” A mídia mundial se voltou para a saga para aprender cada vez mais sobre a história sombria do serial killer Jeffrey Dahmer, que assassinou, desmembrou e consumiu cerca de 17 homens e meninos entre 1978 e 1991. Acontece que o trabalho de Ryan Murphy (Glee e American Horror Story) gerou controvérsia por sua glorificação de criminosos cruéis e brutais.


Jeffrey Dahmer (interpretado por Evan Peters) conseguiu matar 17 jovens rapazes sem levantar suspeitas da polícia (Imagem: Divulgação Netflix)

Evan Peters, ator norte-americano, mais conhecido por seus dezessete personagens durante nove temporadas na série antológica American Horror Story, foi quem deu vida ao canibal na série. Conhecido por usuários de redes sociais como um homem "extremamente bonito”, ele deu um show de atuação. Porém, o fato de Peters ser realmente muito bonito, implica nas faculdades mentais dos espectadores, e consequente, em seus julgamentos do que é moralmente correto ou não?


Vitoria de Lima Ribeiro (22), psicóloga clínica, explica o porquê isso acontece. "A romatização de um serial killers não se dá, necessariamente, pela beleza do ator que o interpreta. Existe um termo chamado hibristofilia, e ele se refere basicamente a pessoas que sentem atração por sujeitos que cometeram crimes graves e/ou violentos.” Ribeiro ainda constata que a hibristofilia não é um tipo de tribulação. “A hibristofilia não é considerada uma patologia, ou seja, não necessariamente essas pessoas apresentam algum tipo de transtorno.”


Baixa autoestima e problemas familiares na infância podem ser presentes em casos assim, mas não obrigatoriamente aparecem em todas as situações. É cabível saber que é óbvio a psicanálise ser muito útil nas investigações criminais, já que os serial killers são indivíduos mentalmente perturbados, que às vezes fingem ser psicopatas ou sociopatas.

"Existe um termo chamado hibristofilia, e ele se refere basicamente a pessoas que sentem atração por sujeitos que cometeram crimes graves e/ou violentos."

Vitória ainda exemplifica alguns pontos. “O que se sabe é que essa romantização envolve uma série de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Todos esses fatores interagem de maneira complexa e gera diversas reações diferentes.” A psicóloga desenvolve uma explicação mais profunda. “Eles exercem uma qualidade atáxica que explica o encanto que os psicopatas têm sobre algumas pessoas.”


“Atáxica” vem da palavra “Atavismo”, que se refere a uma característica antiga que reaparece na vida moderna. Isso leva alguns psicólogos a argumentarem que assassinos sádicos são indivíduos que sofreram um completo colapso no processo de socialização.


Outros “True Crimes”, além de Dahmer, também foram romantizados. E isso não é de hoje. Para contextualizar, Ted Bundy ganhou um documentário híbrido, o “Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal”. Bundy foi o serial killer mais divulgado de todos os tempos. Sua "fama" nasceu nos Estados Unidos, onde cometeu crimes. Hoje sabemos que Ted assassinou pelo menos 36 mulheres. Um número suspeitosamente alto, certo? Bem, não foi. O carisma e a beleza do criminoso fizeram com que todos se perguntassem se ele realmente estava por trás do crime. O estereótipo de que esses indivíduos eram monstros por fora definitivamente acabou. Ted mostrou que todo mundo sabe como parecer normal e esconder sua verdadeira insanidade.



Assim como o real Ted Bundy, Zac Efron também é considerado um homem irresistível (Imagem: Today)

Netflix apresentou o Bundy estrelado por Zac Efron, famoso nos anos 2000 por interpretar o popular e lindo, Troy Bolton de High School Musical. Nesse caso, quem opina sobre a escolha do ator é Camila da Silva (20), consumidora de materiais True Crimes. “Não culpo a Netflix por ter escolhido o Efron para o papel. Todo mundo sabe que Ted Bundy foi um cara muito bonito. O streaming apenas foi fiel na escolha da aparência." Porém, ela confessa que para assistir esse tipo de produção, precisa estar 100% certa em assuntos moralmente corretos ou não. “Mexe com a sua cabeça. Você começa a ter empatia por um serial killer porque ele foi negligenciado pelos familiares, por exemplo. Precisa ser sensata e falar ‘opa, ele não é vítima.' É uma romantização perigosa. Precisamos aprender a não entrar na mente de um assassino para tentar justificar suas atrocidades.”




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